terça-feira, 9 de junho de 2009

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O VELÓRIO

Mario Mauro estava ali parado com o semblante sóbrio. A sua volta algumas pessoas choravam, se lamentavam e se consolavam umas as outras. Ele tentava dimensionar o quanto daquele momento ali vivido influenciava a vida de cada um. E foi nesta hora que ele entretinha-se com seus pensamentos que Magda Mariana adentrou o velório. Ela chorava muito, mal olhou o falecido sobre o caixão e parou do lado de Mário Mauro. Assim automaticamente ele sentiu vontade de saber quem era ela.

- Vai descansar em paz, era um bom homem. – Mário Mauro puxou o assunto.

Pela primeira vez ela o olhou. Mediu seu corpo magro, pelo branca como leite e cabelos espessos. Terminou pousando seu olhar magoado sobre os olhos dele e deu com os ombros.

- Bom, o cacete! Esse homem era o cão! Nasceu para me atormentar e morreu para me fazer feliz!

Mário Mauro indignou como ela podia falar assim dele? Justo naquele dia?

- Senhora me desculpe, mas quem é para falar assim dele?

- Eu? Pois é, quem sou eu!? Perdi a identidade quando dei minha vida a esse trouxa. Deixei de ser eu mesma, para ser quem ele queria.

- E o que ele queria que fosse? – ele estava bastante curioso sobre a ligação dela e do finado.

- Ih... Tanta coisa! Para esse cachorro eu fui enfermeira, aluna, policial...

Mário Mauro assombrou, estaria ela falando mesmo do que ele imaginava? Fantasias sexuais? Olhou para o morto e pela primeira vez sorriu. “Ah muleki doido!”.

- Ta, eu confesso, a jovialidade dele me encatava! Dava no couro sim! – O semblante de Magda Mariana por um segundo suavizou, mas logo tornou a ficar transtornado. – Mas de que valia? Era um ciumento doente!

Ele não entendia nada. Olhou mais uma vez o caixão onde ali ganhava o descanso eterno um homem de cabelos brancos, rugas bem marcadas, idade avançada. Jovialidade? Dar no couro? “Ah tiozão malandrão”.

Desta vez foi a vez dele mirá-la de baixo pra cima. Sua pele era moreno jambo, seu corpo tinha um bom desenho, os seios não eram muito grandes, mas a compensação vinha na bunda. Os cabelos tingidos de loiro mel e caiam sobre seus ombros em uma escova puxada para fora. “Ah tigrão sabidão”.

- Desculpa senhor, mas não acho que seja uma boa hora para xingá-lo. A família está toda aqui inconsolável.

- Família? Bando de falsos moralistas. Cambada de loucos! Aquela tia varizenta, meu sonho é jogar água quente em seu ouvido. Nunca gostaram de mim!

Mário Mauro olhou em volta e tentou adivinhar quem ela chamava de tia varizenta.

- Diga-me uma coisa, se tem tanta raiva por que veio aqui?

- Porque eu o amava! Cachorro, o que tinha que me deixar? Eu dizia para ele se livrar da maldita moto! – dito isso, caiu copiosamente no choro.

- Moto? Mas pelo o que eu sei ele morreu de infarto.

- Ele? Eu não falo dele! Eu nem sei quem ele é! To falando do Edivânio Marlon que está na sala ao lado. Saí de lá porque não agüento nem olhar na cara do canalha. Mas esse aí, quem é, parente seu?

- Ah não, eu trabalho aqui. Só vim dar uma última olhada se esta tudo certo, acabou meu turno. Aceita tomar um suco numa lanchonete aqui perto? Prazer, Mario Mauro.

- Oi, Magda Mariana, Claro! Mas antes vamos passar mais uma vez em Edivânio Marlon, só para ele te ver e saber que estou seguindo a minha vida...

Mário Mauro tentou não pensar de como um morto poderia “vê-lo” e preferiu dirigir seus pensamentos a uma certa fantasia de policial...


5 comentários:

Ari Meireles disse...

huahuahuahuahuahuahua...
E a vida continuaa... hahahaha
Como pode vc achar algo pra rir em um velório.

Ariane disse...

Porra levei um susto hahahahahaha!
Fazer o que ela ta certa, vamos ao suco!!!

Vai ter cena do proximo capitulo?

edison disse...

literariamente o texto é muito bom. humoristicamente esta dentro do "atual". Dias atras estive duas vezes no pronto socorro de um hospital acompanhado pelas minhas filhas aí de lado e presenciamos a estada la de umasenhora que nao deixava de falar. Sosinha, aguardava o medico chamar e ainda acompanhava atenciosamente o comunicado ,porem ela não constava do registro de consultas.

edison disse...

O que estaria fazendo no pronto socorro aquela senhora por duas vezes se não tinha dconsulta. O caso é mais ou menos semelhante historia de ficçao mostrada aí.Li, gostei da montagem. Digna de tv.

cris disse...

Hahahahaha... Aonde vc arruma esses nomes? Muito bom, muito bom!